31 julho 2010

Do outro lado


"Atravessar a rua parece ser uma tarefa fácil. Afinal, fazemos isso todos os dias, uma tarefa rotineira. Mas parando bem pra pensar, envolve muitas decisões em pouco temos e só somos capazes de fazer devido à prática frequente. Estamos condicionados.

Primeiro, tem que se saber pra que atravessar a rua. Pode ser por necessidade, por insatisfação com o lado de cá, pode ter outra motivação. É preciso pesar o risco de atravessar com o ganho que o outro lado dará.

Segundo, é calcular a passagem. Carros, motos, bicicletas. Obstáculos variados. Buracos na pistas, poças de água e/ou lama. E aí temos que andar mais um pouco para atravessar a rua ou desistir.

Terceiro, o andar propriamente dito. Tem pessoas que são displicentes (que os outros se virem pra não acontecer nada comigo), outras são zelosas demais (pode aparecer um carro do nada na rua). Atravessar correndo nunca deve ser a primeira opção (tropessos à vista) e lugar de desfilar é na passarela. Ah, existindo faixa na via, SEMPRE cruze a rua por ela. Se não é garantia de segurança total ao menos pode render uma bom indenização."

Agora tenho que ir. Preciso atravessar uma rua.

27 julho 2010

Tempos idos

      Hoje fui mais cedo ao trabalho, então não deu tempo de tomar café da manhã. Lá pelas 9h bateu aquela fome matinal e eu fui exterminá-la numa das lanchonetes que ficam lá no estacionamento.

      A dona da birosca, popularmente chamda de Galega, tem um mal gosto musical notável. E vá você pedir pra baixar o volume... Ela vem logo falando todas e mais algumas. No momento em que sentei no banco para pedir meu lanche, escuto a voz inconfundível de Roberta Miranda. Não me lembrava a última vez que tinha ouvido alguma música dela que, para mim, é ruim é beça. E isso não me impediu de sentir um pouco de nostalgia. Sabe de onde? Do Pelourinho em Salvador. Você pode estar se perguntando como isso pode acontecer e eu tentarei explicar a partir do próximo parágrafo.

      Minha família por parte de mãe é toda baiana, mais precisamente de Salvador. Meu avô, filho de portugueses, desde sempre teve uma pequena fábrica de carimbos e placas metálicas numas das várias ladeiras que forma o Pelourinho. Quando ia de férias pra lá, sempre me levavam na fábrica. Meu avô morreu quando eu ainda era muito novo, então meu tio (que também é meu padrinho) assumiu o negócio. Como a fábrica ficava numa região menos visitada do Pelô, era possível encontrar a população que vivia naquelas redondezas. Pessoas simples, bêbados, malandros, prostitutas, moleques. Eu me divertinha vendo todos passarem, da janela do 4º andar do Bola Verde (apelido do prédio onde ficava a fábrica).

      Depois de alguns anos, meu tio mudou a fábrica de imóvel, mas ainda ficava no Pelourinho. Foi nessa época que morei por alguns meses em Salvador, pois tinha passado no vestibular da UFBA (abandonei no final do primeiro período e voltei pra Aracaju). Quase sempre passava pela fábrica, conversava um pouco depois ia pra casa. Nesse meio tempo, ficava ouvindo as músicas de um sapateiro que tinha a loja em frente à do meu tio. Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned e... Roberta Miranda. Basicamente era isso que ele colocava pra tocar na maior altura, para quem quisesse e quem não quisesse ouvir. Acha a maior graça naquilo, mesmo odiando a maior parte das músicas.

      Foi um tempo bom da minha vida. Cidade diferente, pessoas diferentes, sotaque diferente. Gostava de caminhar a esmo pelo Pelourinho, subir e descer o Elevador Lacerda, ir no porão do Mercado Modelo. No fim da tarde, um sorvete ou picolé. E depois voltar pra casa caminhando pelos altos de baixos de Salvador.

16 julho 2010

Efêmera


Vou ficar mais um pouquinho
Para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo
Hoje é o tempo preu ficar devagarinho
com as coisas que eu gosto e que eu sei que são efêmeras
e que passam perecíveis
e acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço

Por isso eu vou ficar mais um pouquinho
Para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho
Martelo o tempo preu ficar mais pianinho
com as coisas que eu gosto e que nunca são efêmeras
e que estão despetaladas, acabadas
Sempre pedem um tipo de recomeço

Vou ficar mais um pouquinho, eu vou

Vou ficar mais um pouquinho
para ver se acontece alguma nessa tarde de domingo
Vou ficar mais um pouquinho
para ver se eu aprendo alguma nessa parte do caminho



Linda música da Tulipa Ruiz.

15 julho 2010

Basta!

Basta!
Basta de sentir esse não-sentir
Meu coração não é uma bomba
de bater e pulsar!
Meu pulmão não é um saco
cheio de vácuo!
Quero meu sangue de volta
quente, correndo nas veias
Vitae!
Eu quero querer
e não querer também.
Coração, exploda!!!
Eu sei
Eu sinto
Eu te amo.

13 julho 2010

Lembrar


Lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?

Trecho de um poema da Alice Ruiz

10 julho 2010

Matemática sentimental


      É complexa a arte da relação a dois. Para cada par, uma fórmula nova, novas variáveis e também novos resultados. Analisar os elementos as serem inseridos na equação é tão importante quanto saber as operações impossíveis. Eu trago os meus termos, a outra parte traz os dela e tentamos arrumar tudo. Noves fora, pode dar um intervalo entre 0 e 1. O primeiro representa o fracasso, ao passo que o segundo representa o sucesso. Entre os dois extremos temos a variação mais que comum da relações.

      Amor, amizade, alegria carinho, atenção, saudade (boa) dedicação, juízo, respeito, fidelidade, ciúme, orgulho, tristeza, dor, saudade (ruim). Alguns colocam mais coisas, outros preferem tirar algumas dessas (dizem que fidelidade é para os fracos, por exemplo). No fringir dos ovos, todos tem que queimar neurônios. E gastar paciência.

      Quanto menos fatores nesses cálculos, mais fácil de tudo dar certo. Afinal de (e das) contas, a simplicidade é a solução mais bonita.

Barulhinho bom - parte 2

      Continuando a letra C, a minha cantora preferida das novas que conheci. A Ceumar tem uma das vozes mais doces que conheço. Os arranjos das suas músicas são simples, o repertório dela é bem escolhido e passo horas ouvindo um única musica dela. Escutem "Lá", "Seus olhos", "Banzo", "Maldito costume" ou qualquer coisa que encontrarem.

      Chico Cesar, cantor e compositor paraibano, não precisa de maiores apresentações, acredito eu. Apesar de não estar tão em voga como a vários anos atrás, ainda tem muito a ser ouvido. "Benazir - (ao vivo)", "À primeira vista", "Mand'ela" e "Pensar em você".

      Agora indo para um parte mais independente e alternativa da música nordestina, Cidadão Instigado. Tive o prazer de ver um show deles aqui em Aracaju e foi muito bom. Mistura de rock com um pouco de brega, as letras são muito doidas. Coisa que gostei bastante. "Como as luzes", "Escolher pra quê" e "Os urubus só pensam em te comer".

      Comadre Florzinha, chegou sua vez. Não posso dizer que ela seja uma coisa nova pra mim, pois escuto-a desde 2003. No final do ano passado ela lançou um novo disco depois de anos e valeu muito a pena a espera. Pode escutar qualquer música que é boa. Qualquer uma mesmo.

      Na mesma categorização da Ceumar está a Dea Trancoso. O disco "Tum-tum-tum" é melodicamente lindo. Música que dá vontade de morar num sítio longe da cidade, ficar deitado na rede e se sentir bem. "Canarim do mato" e "Benzim veloso".

      Diretamente do Recife, temos Eddie e seu rock com frevo e/ou maracatu. Enfim, se alimentando da cultura local pra fazer coisa nova. Infelizmente não vi o show deles aqui. "Bairro novo - Casa Caiada", "O baile de Betinha", "É de fazer chorar" e "Me diga o que não foi legal".

      Subindo um pouco de estado, chegamos ao Ceará de Ednardo. Conhece "Pavão misterioso"? Então já conhece algo dele. Escute também "Artigo 26" e a versão de "A palo seco".

      Voltando pra Pernambuco, Karina Buhr fez um belo albúm solo. Cantora, compositora e instrumentista da Comadre Florzinha, experimentou fazer algo diferentes, com outro tipo de sonoridade. Fez muito bem (mas espero que não acabe com o C.F.). "Menti pra você", "Mira ira" e "Virá pó".

      Quem gosta de samba? Eu gosto, principalmente daqueles feitos por causa do amor e da dor. Esses mais animados não são do meu feitio. E adorei Mart'nália. Também tive o prazer de ver um show dela no começo do ano. E pare um pouco de ler isso aqui e ouça "Cabide", "Chega", "Entretanto" e "Pé do meu samba".

      Ainda na letra M, faço todas as apologias ao Mestre Ambrósio, banda que infelizmente se desfez. Pode escutar qualquer coisa deles que vale bastante a pena. "Pé de calçada", "Sois", "Fera" e "Usina (tango no mango)".

      Dando uma pequena pausa na lista. Sei que o texto não tá nenhuma maravilha, mas não teria inspiração pra textos legais pra todos os artistas. E cada hora mais escrevo menos sobre cada um. Kkkkkkkk. Agora imagina falar sobre os mais de 100 filmes que prometi a muito tempo e ainda nem comecei.... Voltando à música.

      Mombojó é do Recife, vem com sotaque e tudo mais. E tem um som mais "low profile", menos agitado. E isso não tem nada de ruim. "O mais vendido", "A missa", "Saborosa" e "Cabidela".

      Tem vozes que são lindas por si só. Outras são bonitas em determinadas situações. É aquela coisa de nem todo mundo canta qualquer coisa e fica bom. Acho que o segundo caso é o Mônica Salmaso. A voz dela é linda demais, relaxante, confortante. Mas ao contrários da Ceumar, que me agradou com vários ritmos e estilos de músicas, a da Mônica só me agradam em canções mais lentas. E cada uma com arranjo mais maravilhoso que a outra. Corra agora mesmo e ouça "Silenciosa" e "A violeira". Depois pode ouvir qualquer outra coisa dela.

      Voltando a Pernambuco, mas saindo do Recife, ten a Orquestra Contemporânea de Olinda, que vai na receita de frevo+alguma coisa. E fica quase sempre legal. "Brigitti", "Durante o carnaval" e "Ladeira".

      Mudando de letra, mas não de estado, Otto. Esse é mais uma redescoberta (estava sem ouvir os discos mais novos dele) que necessáriamente uma novidade. E o som continua bem bacana. "6 minutos", "Crua", "Bob", "Pelo engarrafamento", "Indaguei a mente" e "Lágrimas negras".

      Falar um pouco de uma artista do meu estado. Patrícia Polayne retornou ao circuito musical local depois de anos rodando o Brasil. Seu disco "O circo singular" é ótimo de cabo a rabo. "Arrastada" e "Sapato novo" pra começar, por favor.

      Agora estamos no Rio, com o suingue de Pedro Luis e a parede. Percussão, guitarra e tiradas interessantes nas letras. "Caio no suigue", "Maquina de escrever", "Rap do real" e "Pena de vida".

      Não sei de onde é a Renata Rosa e depois de muito tempo escrevendo esse texto, estou preguiça de procurar. E isso não faz a mínima diferença, faz? As músicas dela me lembram muito os grupos folclóricos de reisados que vejo por aqui. "Brilhantina", "Corta o pau" e "Lá em São Paulo".

(tá quase acabando, faltam dois)

      Não sei se já falei da Tiê. Se falei, tô aqui repetindo; se não falei, estou me redimindo. Escute TUDO dela. Qualquer coisa. Agora!!! "Passarinho", "Assinado eu" e "Te valorizo".

      Pra fechar a lista, um artista alagoano (por opção), coisa que não estou acostumado. Wado é uma grata surpresa do outro lado do São Francisco. "Ontem eu sambei", "Frágil", "Fortalece aí" e "Amor e restos humanos".

      Então, acabou. Pelo menos por agora. Vou criar coragem pra fazer as resenhas dos filmes. Um dia.

09 julho 2010

Inquieto


      Tudo ao mesmo tempo e nada sendo feito direito. Livros, revistas, artigos científicos e textos aleatórios não terminados, músicas que não tocam meus ouvidos, sentidos que não sentem direito. A cabeça e o coração não estão falando, definitivamente, a mesma língua.

      Preciso de foco. Preciso de paciência. E preciso de urgência. Coisas importantes precisam ser resolvidas, umas mais que outras, mas todas carentes de atenção verdadeira. Como só deixar na cabeça não tem surtido efeito, vou partir pro método mais tradicional: fazer uma listinha num pedaço de papel e colar na porta do guarda-roupa.

      Agora, mãos à obra.

01 julho 2010

Barulhinho bom - parte 1

      Acho que tem um bom tempo que não falo de música por aqui, artistas novos que descobri, artistas velhos que voltei a ouvir ou conheci coisas nunca antes escutadas. Vou tentar me redimir.

      Antes de mais nada, vou deixar claro que são estilos musicais diversos, pois sempre gostei de experimentar sons diferentes. Se quem estiver lendo isso tiver gostado dos outros textos que escrevi sobre música ao longo desses anos, não vai se decepcionar. Tenho que também explicitar uma forte influência pernambucana nas indicações e isso se deve em parte aos meus amigos (que moraram ou vão muito ao Recife) que indicam artistas, em parte a minha busca por coisas novas parecidas com o que já gosto. Mas tem artista de Sergipe, Minas, São Paulo, Rio e outros estados também. Além disso, tem artistas estrangeiros, que de filme em filme, de site em site eu vou conhecendo.

      Vou seguir a ordem alfabética da lista de músicas. Começo, então, com o 3 na massa, trio de músicos com características eletrônicas que costumam convidar cantoras para fazer os vocais. Procurem ouvir o disco "Na confraria das sedutoras" e saberão o qual bom é de ouvir. Também tem "Frevo de saudade", com a Céu cantando (essa música não está num disco deles, mas sim numa coletânea).

      O próximo da lista é o Arnaldo Baptista, músico e compositor que começou a carreira nos Mutantes, banda que também revelou a Rita Lee. Som bem psicodélico do anos 60 e 70, com letras igualmente alucinadas. Ou se questionar que vai virar bolor é algo normal?? Escute "Fique aqui comigo" e "Sunshine". São as menos doidas.

      Seguindo em frente, mas mantendo um pouco o estilo musical, temos a Ave Sangria. Confesso que tenho uma queda por essas músicas psicodélicas dos anos 60 e 70, com um som sujo e estranho. Letras legais, ritmo diversificados e um nome bem engraçado (pra mim). "Corpo em chamas", "Hey man", "O pirata" e "Seu Waldir" se tornaram obrigatórias.

      Gosta de frevo? Gosta de músicas com pífanos e flautas? Gosta de músicas cantadas em coro? Então experimenta a Banda de pau e corda. "Pipoca moderna" e "Voltei Recife".

      Cabruêra, roque nordestino arretado e regionalizado. Triangulo, zabumba, guitarra, alfaia. Forró com Nirvana. "Parapoderembolar" e "Batendo o martelo nas mesmas cabeças".

      Completando a primeira parte dessa lista, Céu. A música dela tem batidas eletrônicas, tem samba, tem suingue. Tem qualidade. "Lenda", "Concret jungle" e "Dez contados".